O CINEMA CULT E A SEGREGAÇÃO AUDIOVISUAL
- RAFAELA KERN STEIN 2ª Série EM
- 1 de jul.
- 2 min de leitura
Entre telas e barreiras: como reservar obras a pessoas "cultas" perpetua a exclusão cultural no âmbito cinematográfico.
Escrito por: Rafaela Kern Stein

Fonte: Pinterest "nati4118"
Originalmente uma obra é definida como cult quando ocorre um fracasso na bilheteria ou uma onda de críticas negativas, porém, é mantida viva por seus fãs que a cultuam e apreciam. Um exemplo clássico é The Thing (1982) de John Carpenter, que inicialmente foi um fracasso financeiro, dando um prejuízo de 5 milhões de dólares e recebendo duros comentários dos críticos principalmente por seus efeitos especiais ousados, porém, com seu lançamento em VHS e exibição na televisão dos anos 80, ele se tornou uma obra-prima do terror e da ficção além de ser cultuado por seus efeitos práticos atemporais. Outrossim, Pink Flamingos (1972) de John Waters, uma produção independente de baixo orçamento, criou uma fanbase veemente de fãs até os dias atuais, ainda que foi divulgada anos após sua finalização pelo teor transgressor e a visão controversa de seu diretor, cujo diretor vê o mau gosto como a essência do entretenimento.
Entretanto, com o tempo, algumas obras se tornaram complexas e profundas por saírem do contexto em que foram lançadas, exigindo de seus espectadores uma série de conhecimentos que os ajudarão a compreender os significados inseridos na obra, como Laranja Mecânica (1971) de Stanley Kubrick ou Bastardos Inglórios (2009) de Quentin Tarantino. Esse movimento cria um novo pensamento acerca do termo "cult", em que os filmes são feitos para "pessoas cultas", uma obra admirada por um grupo excludente que levanta a bandeira de que certos filmes só podem ser vistos e aproveitados por seletas pessoas. A definição nesse sentido de "pessoas inteligentes" gera uma separação desnecessária na base cinematográfica e uma segregação social perante pessoas "cultas" e com acesso ao "conhecimento" e pessoas "leigas" e "ignorantes demais" para compreender o real significado da obra.
O cinema é infinitamente plural e vai de produções milionárias a vídeos gravados com um celular no quintal de casa, não se trata apenas de criar obras, mas sim de produzir arte, e por mais que entretenha, esse não é seu único objetivo. Filmes inicialmente polêmicos podem ser vistos sob uma nova perspectiva à luz de novas práticas culturais e sociais, se tornando um elemento de culto e não necessariamente de segregação. O uso do termo cult para designar obras supostamente mais difíceis e inacessíveis a uma casta social é uma proposição elitista e excludente, que perpetua um estigma de afastamento do público e aversão da fanbase para com aqueles "indignos" de compreenderem a grandiosidade cinematográfica de uma obra muitas vezes confusa e incompleta, já que aparentemente a relação de culto entre um público segregacionista e a dificuldade de compreensão da obra é proporcional.
A cultura cult em seu significado original é extremamente benéfico para a perpetuação de obras atemporais que podem tomar significados dissemelhantes com o tempo e a mudança de pensamento, e consequentemente, ajudam na expansão de repertório e ciência de outras épocas. Porém, sua adaptação segregacionista de classificar obras como cultas e pessoas como leigas é perniciosa para apreciadores do cinema e cria uma bolha excludente desnecessária no desenvolvimento da arte.







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